Natalismo

Sinopse: Uma menina de rua. Véspera de Natal. Um crime. O orfanato só para meninos foi sua única opção de abrigo. Ao aceitar o convite para escapar do frio implacável de dezembro, Taylor não poderia imaginar que estava embarcando em uma história que jamais a deixaria dormir em paz novamente.


24 de Dezembro

1

Tudo tremia e o barulho era ensurdecedor. Anthony despertou desnorteado e bateu com a testa na madeira ao tentar levantar. Levou as mãos ao rosto e rezou para que o pesadelo tivesse fim.

Risadas e gritos histéricos de crianças, ainda que abafados, podiam ser ouvidos em meio às pancadas na madeira. Ao tentar se mover, teve a certeza de que estava em um caixão. Buscava o ar e sentia que não havia o suficiente para encher seus pulmões. Ofegante, tentava empurrar a tampa do caixão com os braços e pernas, mas não havia espaço para que conseguisse forçar uma possível saída.

A escuridão desesperou o menino claustrofóbico. Gotas geladas escorriam de sua testa e eram acolhidas pelos seus cabelos lisos e oleosos. A ânsia de vômito surgiu e seu corpo amoleceu.

– Parem com isso! – O grito ecoou pelo quarto e chegou aos ouvidos de Anthony.

A última tentativa desesperada de sair funcionou e ele foi capaz de levantar tampa e colocar a cabeça para fora. O jato de vômito teve endereço certo.

– Minha pantufa!- gritou um dos sete meninos.

Anthony se deu conta de que não estava em um caixão.

– Sai da minha frente – ordenou Taylor.

– E se eu não sair? Vai fazer o que? – respondeu Bruno, o maior deles.

Um chute certeiro atingiu o grandão entre as pernas. Ele sentiu a dor aguda subir pelos testículos e chegar até o coração. Caiu com a mão entre as pernas.

Quando Taylor gritou para que parassem, sua voz rouca já havia feito com que três deles recuassem. O chute se encarregou de espantar os outros. Inclusive o da pantufa vomitada, que escorregou ao tentar correr e deixou o calçado para trás.

Bruno continuava caído. Lágrimas escorriam dos olhos mas ele não tinha forças para chorar. Enfiou uma das mãos dentro da calça e tateava a região atingida.

– Minhas bolas!!! Ele esmagou minhas bolas! – berrou o garoto, ao apalpar o saco vazio.

 

2

– Os garotos colocaram ele dentro da caixa onde os lençóis ficam guardados e não deixavam ele sair.

– E você bateu no seu amigo por isso? – perguntou irmã Lourdes.

– Amigo? Bati nele mesmo. Mereceu.

– Você não pode fazer isso. Pode ir embora que agora vou cuidar dele e depois resolvo esse problema.

Resolver o problema significava castigo. Quinze dias naquele orfanato e já era a quarta vez. Melhor do que dormir na rua, ela pensou.

Quando fora encontrada por Madre Clarice, seu único desejo era o de conseguir um abrigo que pudesse protegê-la do frio rigoroso de dezembro. O orfanato ficava dentro de um convento e era exclusivo para meninos. Taylor não tinha problemas em se passar por um, já fazia isso desde seu primeiro dia como moradora de rua. O cabelo curto e crespo da menina era facilmente associado a um traço de masculinidade, costumava esconder seus seios, ainda bem discretos, sob um pedaço de pano que usava para comprimi-los. Aprendeu cedo que viver na rua tinha seus perigos, ainda mais sendo uma menina. A chegada dos treze anos piorava tudo. Com a puberdade, surgiu a necessidade de esconder os sangramentos mensais, que tanto lhe preocuparam ao chegarem. Por alguns meses chegou a pensar que estava morrendo aos poucos. Ainda mais quando esses vinham acompanhados de puxões dolorosos em suas entranhas.

Mas ali estava ela. Os dias passavam e conseguia garantir o teto escondendo seu sexo. Cedo ou tarde seria descoberta. A esperança era torcer para que isso só ocorresse após o término do inverno.

Anthony se aproximava.

– Obrigado – disse ele.

O rosto fino e marcado pelos ossos denunciava o quão magro e frágil era. Não costumava se alimentar muito. Por ser mais fraco que os outros meninos, sempre tinha que utilizar parte de sua comida como oferenda para evitar agressões futuras.

Taylor estava sentada no banco mais isolado do terreno, grande como era, ocupava quase todo o assento. A neve descansava sobre o solo e formava um tapete branco e gelado, marcado por pegadas de crianças.

– Senta aí – ordenou, cedendo espaço para que ele pudesse se acomodar.

– Ela quer falar com você.

– Eu sei. Vai ser castigo de novo.

– Acho que sim… Eu te ajudo.

– Não… Amanhã isso acaba para você.

– Não.

– Como assim?

– Eu não vou passar o natal com eles.

– Ah… O casal desistiu de te adotar?

– A irmã disse que não é isso. Eles só tiveram um problema e não vão poder me buscar hoje, só dia vinte e sete.

– Que dia é hoje mesmo? – ela perguntou.

– Vinte e quatro.

Taylor abriu as mãos e começou a contar os dedos. Um, dois, três… Quinze, dezesseis, dezessete… Anthony observava com curiosidade enquanto ela abaixava os dedos grossos cada vez que um número passava. Vinte quatro, vinte cinco, vinte seis e vinte sete.

– Então, falta pouco – ela deduziu.

Anthony franziu a testa e olhou de rabo de olho.

– É… – disse ele, ainda analisando a falta de intimidade de Taylor com os números.

Uma das irmãs surgiu na varanda:

– Vocês dois, já para dentro!

 

3

No momento, o lugar abrigava quatorze órfãos. A propriedade contava com duas construções: o casarão principal e uma casa menor (chamada por todos de abrigo). Todas as irmãs moravam no casarão, lugar espaçoso e de arquitetura que remetia a um passado de dias melhores. O cuidado com a parte exterior deixava a desejar, dando uma falsa impressão de abandono para quem nunca tinha estado no interior. O abrigo era destinado às crianças e adolescentes; dividido em quarto, refeitório, cozinha e banheiro. Todos os dias, as irmãs faziam um revezamento para definir qual delas passaria a noite lá.

Os preparativos para o natal já haviam começado e Taylor fora recrutada para ajudar. O que deveria ser um castigo, transformou-se em uma grande oportunidade para comer. Não estava acostumada a ver tanta comida assim. Sempre que conseguia, beliscava uma coisa ou outra. A vontade de encher os bolsos de comida e guardar para mais tarde tinha sempre que ser controlada. O risco de ser pega existia e faria com que as irmãs percebessem a ineficácia do castigo.

O pequeno sino do alto do casarão bateu e o refeitório do abrigo foi invadido por meninos aos berros. Todos aproveitaram a neve para se divertir do lado de fora. Menos Anthony, que passara o tempo entretido com sua leitura em um canto da cozinha. Para a tristeza de todos, logo veio o aviso de que as comidas natalinas só seriam servidas no dia seguinte.

Eles se enfileiraram com bandejas nas mãos e foram servidos por Taylor. Ela reparou que Bruno andava com as pernas afastadas, imaginou que o chute ainda trazia-lhe lembranças dolorosas. Bastava reparar melhor na cara de bunda que Bruno ostentava para saber que aquilo teria volta. Taylor não temia. Já tinha enfrentado maiores e mais velhos. Ambos tinham a mesma idade, mas eram fisicamente bem mais desenvolvidos que os outros órfãos.

Os testículos de Bruno não haviam sido esmagados. Depois de alguns minutos apalpando o saco murcho, percebeu que eles estavam escondidos próximos a região de sua pélvis. Com cuidado tratou de forçá-los para o lugar apropriado. Quando chegou a vez de ser servido, encarou Taylor e sentiu o peso a comida arremessada de má vontade em sua bandeja. Alguns respingos da sopa quente acertaram seu braço. Ele não pareceu se importar, sequer mudou o semblante. Apropriou-se dos talheres. A veia pulsante saltava na testa e ele tremia.

– Próximo – gritou Taylor.

Bruno não se mexeu. Repousou a bandeja no balcão e segurou a faca. A boca contraída de raiva mais parecia um cu dentado.

Ciente de que a distância era suficiente para que aquela faca a atingisse, Taylor encheu a concha que segurava com a sopa. Também não se mexeu. Como em um filme clichê de faroeste, os dois se encaravam. Bastava que um tomasse a iniciativa para que o outro revidasse.

O tempo correu de forma diferente para eles. Os olhares eram intensos. Ninguém piscava.

– Algum problema? – perguntou irmã Lourdes.

A fila andou.

Clique aqui para continuar lendo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s