Ano Novo

Sinopse: No dia 31 de dezembro de 2016, cinco amigos pretendiam passar o ano novo juntos. Apenas um voltou para casa. O antigo apartamento em Copacabana se torna palco de uma história de terror, suspense e traição.


 

1

No dia 31 de dezembro de 2016, cinco amigos pretendiam passar o ano novo juntos. Apenas um voltou para casa. Grande parte dessa história é baseada no depoimento prestado pelo sobrevivente à polícia civil carioca.

Com um mês de antecedência, Tiago perguntou:

– Partiu copa no ano novo?

– Partiu! – responderam três ao mesmo tempo.

– Bora, Daniel?

– Copa agora só em 2018 – ele respondeu.

– Putz, que merda de piada… Deixa de ser palhaço, bora?

Daniel riu.

 

2

Daniel preferiu chegar cedo. Morava no Catete e sabia que pegar o metrô para Copacabana no ano novo é um inferno. Aquela galera vestida de branco, com seus suvacos amarelados e suados, apertando-se no vagão, não se encaixava na sua ideia de diversão. Para evitar tudo isso, antes do almoço, já estava lá.

O apartamento ficava no quarto andar de um prédio antigo, localizado na Rua Barata Ribeiro. Ao chegar, demorou a reconhecer o prédio, a reforma feita na fachada havia sido estendida para a portaria e o local de entrada fora alterado. Antes mesmo que ele terminasse de digitar o número do apartamento no interfone, o porteiro atendeu:

– Vai pra onde?

Pego de surpresa, respondeu:

– É… Bom dia. 401.

– Espera aí – ordenou.

Pelo vidro, pôde ver que o senhor sisudo tentava contato com o apartamento. O procedimento demorou mais do que deveria e o fez esperar debaixo do sol pouco agradável do verão carioca. Um estalo e a porta foi destravada.

Já ciente de que a educação não era o forte daquele senhor, Daniel passou em silêncio e apenas sinalizou de forma afirmativa com a cabeça ao passar pelo porteiro. Desconfiado, o homem não deixou de segui-lo com o olhar até que entrasse no elevador. Talvez a explicação fosse óbvia. Como o apartamento era da tia de Tiago, e ela não morava no Rio, era incomum aquela movimentação.

Apesar de antigo, o prédio apresentava boa conservação e um cheiro que, mesmo sem ter vivido aquele período, remetia Daniel à década de sessenta. Prédio de pessoas com poder aquisitivo bem acima da média nacional, o lugar contava com apenas um apartamento por andar. Dois elevadores levavam até entradas independentes do mesmo apartamento. Pegou o elevador de serviço, já que a tia nunca deixava a chave da entrada social com Tiago.

A porta pantográfica se abriu fazendo um esporro desproporcional ao necessário assim que o elevador chegou. Daniel não gostava de elevadores, um misto de trauma infantil e claustrofobia. Apertou o botão com o número quatro ao lado e fechou os olhos até que outro esporro acusasse o término da viagem. Ao sair, Tiago já o aguardava com a porta que dava para a cozinha aberta.

 

3

– Chegou cedo – disse ele após cumprimentar o amigo e trancar a porta.

Havia suor em sua testa e a respiração ofegante deixava sua voz trêmula e hesitante.

– Ué, você falou que ia precisar de ajuda.

– Sim, mas a gente tinha combinado de ir no mercado à tarde. Não esperava que você viesse antes do almoço, nem comprei nada pra gente comer.

– Deixa de ser mão de vaca, cara. A gente vai ali na esquina e pega um frango. Eu pago.

– Beleza… Quer água? – ofereceu já abrindo a geladeira.

– Misturada – respondeu Daniel, enquanto caminhava para a sala.

– Não chegou ninguém ainda. Toma sua água – disse ele, quase derrubando a garrafa no chão com uma cotovelada involuntária.

– Valeu! Cara, preciso ir ao banheiro.

– Vai no de empregada.

– O outro ainda está ruim?

– É… a descarga ainda está dando problema.

Enquanto despejava sua urina no vaso rosa, que para ele denunciava a falta de bom gosto da dona do local, Daniel pensou ter ouvido uma voz feminina. Modificou a direção do jato amarelo para uma parte da louça que não fizesse tanto barulho e tentou escutar melhor o que acontecia. Tudo o que conseguiu ouvir foram passos apressados.

Balançou e guardou. Alguns pingos atingiram o piso branco e o último ficou para a cueca.

– Chegou alguém? – perguntou ao ver Tiago sentado em uma posição pouco espontânea no sofá da sala.

– Ahn? Não. Só vão chegar mais tarde mesmo. Vou só mandar uma mensagem para eles confirmando e a gente desce para almoçar.

– Beleza… – respondeu Daniel se atirando no sofá em busca do melhor lugar para aproveitar o vento que vinha do ventilador de teto.

O som da porta do elevador se ouviu, Daniel olhou para Tiago, que fingiu não ter escutado.

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