Batismo de Sangue

Sinopse:  Em pleno carnaval do Rio de Janeiro, o incêndio na casa de dois andares esconde o sangue que banha o local. Um novato é recrutado para ajudar na investigação e aprende na prática que sobrenatural não poupa inocentes.


1

Luzes de sirenes iluminavam a frente da casa. Os dois observavam as paredes negras e a fumaça que ainda escapava por qualquer abertura existente. Tudo fedia. Cheiro de água e fuligem atingiam o nariz torto do mais velho.

– É aqui mesmo?

O mais novo, com seu nariz arrebitado, puxou o ar. Como um cão, farejava o ambiente em busca de informações.

– Só pode ser, muito cheiro de sangue.

– Então vamos.

Os bombeiros ainda mantinham a área isolada. Muito curiosos se aglomeravam para acompanhar o combate ao incêndio. Algumas pessoas que estavam no local eram atendidas no chão da calçada. A interdição da rua, repleta de ambulâncias, carros da polícia e dos bombeiros, ainda era mantida e o trânsito precisou ser desviado.

Com autoridade, o de nariz torto se aproximou da faixa que impedia que os curiosos chegassem mais perto. Sua barba por fazer e olheiras acentuadas não passavam uma boa impressão. Ele levantou a faixa e um policial se aproximou:

– Cidadão, essa área está isolada.

– O que disse?

– Não pode passar. Você é cego? Não tá vendo a faixa?

– Boa noite, qual sua patente?

– Soldado Peixoto – ele respondeu e apontou para o nome gravado na farda.

– Soldado, vá à merda.

– Como é? – O tom de voz do policial subiu e ele levou a mão à pistola – Tá preso por desacato, seu merda. Mão na cabeça, vai.

O nariz torto puxou uma carteira comum do bolso e mostrou para o policial que, de imediato, tremeu e se apressou em dizer:

– Senhor, desculpe! Não sabia que o senhor…

– Soldado, vá a merda… Mostre-me quem está responsável pela ocorrência.

E assim ele fez.

– Ele está comigo. – disse apontando para seu companheiro.

– Claro, Major. Podem passar.

Enquanto iam em direção ao responsável, o mais novo perguntou:

– Fico impressionado com esse truque da carteira, como funciona? Você mostra qualquer carteira e faz com que a pessoa veja o que você quer que ela veja?

– Quase isso… Eu só faço com que ela veja o que mais teme ver. Nesse caso, nosso amigo se cagava de medo do Major Almeida.

Qual seu nome mesmo?

– Enquanto estivermos aqui, Major Almeida.

– Quero saber o real…

Ele parou, abaixou-se para ficar na altura do rosto de seu companheiro e, de olhos arregalados, decretou:

– Major Almeida.

– Prazer, eu sou João – disse. Estendeu a mão e ficou esperando um aperto que não veio.

A mesma estratégia utilizada para conseguir passar pelo isolamento foi usada para entrar na casa.

– Você pode me contar como funciona esse negócio da carteira? Sei que é minha primeira vez em um caso desses, mas já queria aprender algumas coisas.

– João, se você não calar a boca e parar de encher meu saco, vou te ensinar como engolir a própria língua. A partir de agora, você só fala quando eu mandar. Entendido?

Sim, ele havia entendido. Tentou verbalizar e a voz não saiu, não controlava mais a parte do cérebro responsável pela função. Os olhos daquele homem de nariz torto disseram mais do que a boca. João, de imediato, soube que ele se chamava Gregório, mas ou outros o chamavam de Greg. Não gostava de muita conversa e poderia mergulhar na mente de qualquer um que olhasse em seus olhos.

– Vou perguntar de novo e agora quero que balance a cabeça. – disse Greg. – Você entendeu?

João acenou positivamente.

 

2

Sozinhos na casa, caminharam em meio aos escombros. Com a mente do responsável pela operação sob sua influência, tinham tempo suficiente para fazer o que era preciso.

Todo o primeiro andar fora lambido pelo fogo. Greg ajoelhou, tocou as cinzas com as pontas dos dedos e levou até a boca. Deixou que o material se dissolvesse e entrasse em contato com suas papilas gustativas e cuspiu. De nada adiantava, sua capacidade de percepção através dos sentidos já não existia mais como antes. Aquilo só alimentava ainda mais a raiva que sentia pelos novatos.

Após percorrer a casa como um cão farejador, João chegou até as escadas. Olhou para Greg em um claro pedido para que pudesse falar.

– Fale logo – ordenou.

O bloqueio mental que impossibilitava João de falar se foi e ele apontou para a porta no topo da escada:

– Eles estão lá.

– Vá na frente.

– Mas… E se… – João não sabia o que deveria temer mais, Greg ou o que o aguardava adiante.

A expressão ameaçadora de Greg ao notar sua hesitação foi de grande ajuda para que ele se decidisse.

A porta entreaberta facilitou a entrada. A primeira cena já fez com que João desse meia volta e jorrasse um jato de vômito nos degraus da escada. Greg apenas lançou um olhar de reprovação e entrou. Três cadáveres davam boas vindas aos que entravam. Dois, de joelhos e abraçados, ocupavam o centro do cômodo. O chão ao redor deles era negro, consequência da evidente morte em decorrência do fogo. Carbonizados, seriam considerados uma obra de arte macabra caso fossem expostos em um museu, ideia que agradava a Greg. Quero uma dessas na minha sala, pensou.

Já recuperado, João retornou ao lugar com cautela. O terceiro cadáver tinha o rosto mergulhado em uma poça de sangue.

– O que houve aqui?

– Isso é você quem vai dizer.

– Como assim? Do que você está falando?

– Você acha que veio aqui só para encontrar o local?

– Foi o que me mandaram fazer. O que mais você quer de mim?

João se aproximava da porta, estaria preparado para correr em caso de necessidade. O estrondo violento da porta que se fechou.

– Me deixe sair – implorou João.

– Nós vamos sair… Juntos. Mas antes você vai me ajudar a entender o que aconteceu.

Ao estudar melhor o lugar, João notou a presença de outro cômodo. Seria possível ver o interior do lugar se o vidro que formava uma espécie de vitrine para lá não estivesse pintado de vermelho.

– Aquilo é sangue? – ele perguntou.

Greg se aproximou da entrada, repleta de pegadas do que parecia ser sangue, e examinou o interior.

– Olhe isso – disse ele.

O que João viu não era suportável. O frio subiu pelas pernas e roubou a cor de seus lábios. Todo o vermelho que cobria o lugar ficou lento, embaçado… Escuro.

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